fev 172009
 


Angela Weiner – GPN

teatroO teatro tem um papel social bastante evidente. Ele é um instrumento alternativo que possibilita uma participação efetiva, principalmente quando ele é meio e não fim. Como meio é um dispositivo disparador para provocar uma abordagem transversal, permitindo observar as redes institucionais que se cruzam, as relações que se  (des)constroem.  Ao enfocar situações e a relação dos personagens nestas situações, o teatro articula-se na engrenagem social. Sua abrangência enorme de signos, suas múltiplas linguagens (cenário figurino, cores, atores, gestos, movimentos, etc), sua temática capaz de perpassar diversas instituições e,  principalmente, sua característica de se fazer “in presentia”, numa forma de ação direta, tudo isso faz com que o teatro encontre o seu verdadeiro papel político-social, nas ruas, nas praças, nas comunidades, participando ativamente de um processo de mudança das estruturas instituídas.

A força desse dispositivo que é o teatro está na sua construção a cada apresentação. Cada espetáculo é único. Ele é determinado a cada relação dos atores, da platéia, destes com a temática e com a mobilização do aqui/agora.

A presença do ator – pele e não película – indo ao encontro do espectador  no espaço deste (comunidade, hospital, escola ), num processo aberto e direto de troca, transforma esse espectador em ator (no sentido de atuar), tornando-o (o que é real) protagonista da ação.

Quando a narrativa trabalha os argumentos e dialetiza para aguçar a reflexão, quando esse teatro ambulante e coletivo fica aceso a discussões e avesso a convenções, quando há uma constante auto-crítica que garanta o ajustamento do trabalho com a realidade, quando se desfamiliariza o familiar, desconstrói o construído numa técnica provocativa, quando se propõe um contexto de contradições, surpresas, polêmicas que incitam e instigam a reflexão do público, a montagem teatral tem a força de uma comunicação direta, audaciosa, possibilitando a obtenção de novas respostas.

O que se quer fazer é um teatro que não só apresente relações interpessoais, mas também as determinantes sociais dessas relações. Um teatro que permita uma visão sistêmica, reconhecendo as condições sociais nas quais se está inserido e, principalmente, não se identificando com a rotina, a discriminação e o abandono social. Há um intuito didático no teatro, capaz de esclarecer e transformar.

O teatro é antes de tudo Atividade (até pelo próprio campo semântico – Atuar). E essa atividade aquece, preparando o terreno para um espontâneo e consciente compartilhar. 

TEATRO/PÚBLICO/DEBATE 

“Cada pessoa não é limitada pela pele e inclui algo significativo das relações interpessoais”

Gregory Bateson 

Teatro é grupo e grupo é intermediário da relação Indivíduo/Sociedade. O grupo/teatro insere o grupo/platéia no aqui/agora do espetáculo.

Óbvio que há de se enfatizar uma comunicação capaz de manter atento o público, fazendo-o emergir questões , dúvidas e  suas próprias soluções. Na verdade o que se quer é um exercício de mútua busca de soluções, de conscientização de mudança de paradigmas, de reavaliações de práticas discursivas do contexto social. Uma troca permanente de experiências, onde os conceitos culturais dominantes possam ser postos em análise, sob diversas óticas.

O teatro pode, pelas suas características, interpenetrar palco e platéia, temática cênica e vivência real, diluindo a distância e aproximando a discussão. Dessa forma, o teatro existe na relação  espetáculo/público/debate. É um todo indissolúvel, onde uma parte realiza a outra.

Há que se entender que o Público não é simples receptor de mensagem (nem o teatro simples depositor), mas ele reflete, analisa coletivamente, toma consciência (ou renova) de problemas urgentes e vitais. Ele vê  a própria situação social refletida no palco e o que se quer não é uma atitude cômoda de “é assim mesmo”, mas uma atitude de análise e mudança. Não se quer uma platéia fixa, imutável, acomodada, mas um  ser coletivo, em processo, que pode transformar-se, com uma atitude crítica em face da realidade e das vicissitudes sociais, com uma intervenção direta. Um público sujeito/agente/produtor de sua história.

É isso que se quer de uma metodologia que coloca o teatro como um meio eficaz e capaz de manter essa linha direta e instigadora com o público – num debate vivo, intenso. E essa intensidade é mais manifesta quando os atores passam mais a ouvir – e é nesse instante que a intensidade do relacionamento com  a platéia cresce.

Assim o debate está intimamente ligado ao espetáculo. Afinal aquele é uma continuação deste. O espetáculo per si é transição, cuja maior importância é dar um corte transversal na realidade vigente, ampliando a observação dos mecanismos estabelecidos e servindo, assim, à troca de idéias, de experiências e em busca de formas de responder  a essa realidade com novas construções de pensamento e de ação.

Angela Weiner é autora convidade do GPN e foi palestrante no Rhio Coffee Businness



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