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É um desconforto muito grande quando a minha “cabeça” falha e não consigo lembrar alguma coisa. Por outro lado, fico bastante feliz por ter lembranças muito boas de um momento bom que eu tenha vivido.
Foi por causa de lembranças boas que cheguei até a Tania Scripilliti. Psicóloga e psicoterapeuta, que atuou na área de Recursos Humanos de uma empresa do ramo joalheiro em que eu já trabalhei também.
Tania Scripilliti sempre foi tranqüila, atenciosa e interessada no bem estar dos outros. É uma pessoa que tem por missão “Acompanhar, apoiar, estimular e desenvolver pessoas, por meio do autoconhecimento e da aquisição de novas habilidades e atitudes, para o exercício mais pleno e feliz de suas potencialidades na vida. Trocar experiências e aprender continuamente”.
E como aprender continuamente é algo em que acredito e procuro praticar, após visitar seu blog, resolvi fazer uma entrevista com ela para o Gestão de Pessoas e Negócios (GPN) e dividir com vocês sobre o trabalho que realiza e tirar dúvidas sobre como lidar com colaboradores que possuem familiares que tem a doença de Alzheimer.
Alzheimer é um tipo de demência. Uma doença silenciosa, degenerativa, progressiva e ainda sem cura. Uma doença que compromete o cérebro provoca dificuldade de raciocínio e perda de memória. Que gera confusão e transtorno mental e faz com que o paciente tenha mudanças de comportamento constante. Uma doença que requer muita atenção com o paciente, mas também com os seus familiares.
Carla Coelho – Tânia, como acontece esta doença e como é possível diagnosticá-la?
Tania Scripilliti – Acontece quando percebemos em nosso familiar alguns destes sintomas: perda da memória recente; instabilidade emocional; dificuldades de concentração; desorientação espacial e temporal, repetição das mesmas perguntas e comportamentos bizarros. Aí é hora de procurar um médico neurologista para o provável diagnóstico. Digo provável porque só teremos comprovação da doença de Alzheimer após a morte do paciente, numa autópsia.
Carla Coelho – Você tem um blog que fala sobre a sua experiência com a doença de Alzheimer. Como surgiu à idéia de escrever um blog e principalmente sobre esta doença?
Tania Scripilliti – A idéia de escrever o blog surgiu de uma necessidade de compartilhar a rica experiência que tenho no meu trabalho de psicoterapia de grupo com os familiares de doentes com Alzheimer. Há muito preconceito em relação à doença de Alzheimer, que é um tipo de demência. Muitos têm vergonha de ter um familiar com a doença. Outros sentem culpa, raiva, frustração… Mas quando descobrem que não estão sozinhos, que podem falar de seu sofrimento, que há soluções, o fardo fica mais leve.
Carla Coelho – Assim como você, eu acredito que o voluntariado nos torna uma pessoa melhor, mais humanizada e disposta a contribuir com o crescimento de quem está ao nosso redor. Conta para nós um pouco do seu trabalho voluntário na APAZ – Associação de Parentes e Amigos das Pessoas com Alzheimer e sobre o GRUPOTERAPIA DA APAZ.
Tania Scripilliti - Eu sempre quis fazer um trabalho voluntário, mas usava o “não tenho tempo”, como desculpa. Recebi um dia no consultório uma Sra., que apresentava sintomas da doença de Alzheimer e encaminhei-a para um médico Geriatra. Eu mesma conhecia pouco sobre a doença e fui parar na APAZ para obter mais informações. O fundador da Associação Jacob Guterman e a presidente Maria Aparecida Guimarães abriram as portas para mim. Isso foi em 2002 e estou lá até hoje, e continuo aprendendo… Como nada acontece por acaso, eu entendi a mensagem. Posso dizer que me faz muito feliz, que fiquei uma pessoa melhor e recebo muito mais do que dou. O Grupoterapia é uma psicoterapia de grupo para familiares de doentes com Alzheimer, que queiram fazer uma viagem de autoconhecimento para dar conta do sofrimento que vivenciam.
Carla Coelho – Qual a maior dificuldade enfrentada pelo familiar de um doente com Alzheimer?
Tania Scripilliti - Creio que a maior dificuldade é aceitar a doença e procurar ajuda. Mesmo depois de ter o diagnóstico provável, ainda percebo que muitos familiares não querem acreditar que a doença não tem cura e busca a solução mágica, o remédio milagroso. Ou negam que o familiar está doente, por não aguentarem a situação.
Carla Coelho – Como deve ser a relação dos parentes e amigos com um doente com Alzheimer?
Tania Scripilliti - A relação jamais será a mesma de antes. Portanto, os familiares e amigos, informados sobre a doença de Alzheimer, terão de encontrar uma maneira de ressignificar a relação, uma nova maneira de estabelecer contato. Uma coisa é certa: não adianta usar a lógica, nem confrontar idéias para ver quem está certo, nem ficar lembrando ao doente do quanto ele já repetiu aquela pergunta e do quanto já obteve resposta. É preciso ser criativo nas estratégias de relacionamento de modo a lidar com o doente de forma tranquila, evitando reações catastróficas.
Carla Coelho – A família do doente com Alzheimer adoece também?
Tania Scripilliti - Se ela não se cuidar, sim. Ninguém pode cuidar do outro, sem primeiro cuidar-se. É importante estar ciente que a doença de Alzheimer do seu familiar pode durar anos. Portanto, ninguém pode cuidar sozinho de um paciente que necessita de 24 horas de cuidados. Como a doença gera uma necessidade muito grande de mudança na família, um estresse constante, os problemas que adormeciam debaixo do tapete vêm todos à tona.
Carla Coelho – Sabemos que o familiar do doente de Alzheimer vivencia questões estressantes e que requer muito equilíbrio emocional. Hoje se fala muito em qualidade de vida, que não temos como separar a vida pessoal da profissional. Como evitar que uma pessoa sobrecarregue sua vida profissional com as questões difíceis vivenciadas em casa?
Tania Scripilliti - É impossível mesmo separar vida pessoal da profissional, pois somos seres integrais. No caso do profissional ter um familiar com doença de Alzheimer, ele terá que buscar ajuda. Sabemos que não há receita de sucesso, que cada caso é um caso. Mas acredito, que se este profissional se informar sobre a doença, procurar perceber de que modo o afeta, que sentimentos vivencia, que tipo de ajuda precisa, poderá lidar melhor com as situações que surgirão no dia a dia da doença. Não é fácil, mas é possível.
Carla Coelho – O que as organizações podem fazer para contribuir com os colaboradores que possuem familiares com Alzheimer?
Tania Scripilliti - O mais importante é tratar a doença de Alzheimer sem preconceito e estimular os colaboradores a buscar informação e ajuda. As organizações podem promover palestras e distribuir material explicativo. Só não podem minimizar o sofrimento da família que tem um doente com demência aos seus cuidados. A APAZ faz palestras e promove reuniões em sua sede na Marechal Floriano 65. Também tem material para distribuir.
Carla Coelho – Para este nosso bate papo, fiz pesquisas sobre a doença e encontrei muitos artigos sobre o comportamento de um familiar para ajudar o paciente ter uma qualidade de vida melhor, entretanto não consegui localizar artigos que falassem sobre esta relação do familiar do doente com Alzheimer X apoio das empresas com os funcionários que possuem familiar com esta doença. Baseada na sua experiência, no trabalho dedicado ao GRUPOTERAPIA DA APAZ, que tipo de leitura você sugere aos profissionais de RH e que dica você dá para que eles possam ajudar os funcionários?
Tania Scripilliti - Creio que os profissionais de RH encontram na internet, vasto material sobre a doença. No entanto, na prática, a teoria é outra! Por isso, além da informação, seria importante que o RH participasse das reuniões mensais da APAZ, onde poderia vivenciar a troca de experiências com familiares de doentes com Alzheimer. Há outras associações de Alzheimer, que também promovem encontros. Falo da APAZ porque conheço e porque é uma associação de familiares. A dica seria, portanto, ter uma experiência integral, racional (informação) + emocional (sofrimento do familiar).
Aprendi muito com esta entrevista. Além das pesquisas que fiz, conhecer o blog da Tania Scripilliti e o trabalho que desenvolve me enriqueceu muito. Sugiro que acompanhem. Agradeço por ela ter se disponibilizado e pelo exemplo.
Sempre acreditei que as pessoas não passam em nossa s vidas por acaso e espero que você também acredite nisso.


Tânia e Carla,
Parabéns pela qualidade da entrevista sobre um tema ainda pouco abordado, especialmente aqui no Brasil.
Tânia,
Muito obrigado e gostaria de dizer-lhe que as portas do GPN estão abertas para você e suas causas.
Pepe Lavandeira – GPN
Pepe e Carla
Obrigada pela oportunidade. Ficou bem legal a entrevista!
Com certeza vcs não passaram na minha vida por acaso.
No dia 21 de setembro comemora-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Já temos a programação,
mas ainda não temos confirmado o local. Qdo tiver, vou enviar para GPN.
Parabéns e muito sucesso!!!